Com quase 80 doações de órgãos, Cianorte se destaca no cenário estadual

A espera por um órgão é a realidade de 1.600 paranaenses atualmente. No âmbito nacional, o número sobe para 41.122. Para estar cadastrado no sistema é necessário ter os exames em dia e estar preparado para receber uma ligação que pode significar uma nova oportunidade de vida. Foi o que aconteceu com Eliton Pacheco, depois de quatro anos de espera passando pela dura realidade da hemodiálise.

Pacheco tem 30 anos, é engenheiro agrônomo da região de Cianorte e há pouco mais de um ano nasceu de novo. O jovem descobriu uma doença hereditária que prejudicaria o funcionamento dos rins ao longo do tempo quando ainda era criança, mas viveu bem até os 25 anos, quando os órgãos começaram a apresentar mais problemas e ele teve que passar para a hemodiálise.

Eliton Pacheco, receptor de rim

Em 2015 eu cheguei a ter uma parada respiratória e fiquei internado em uma UTI durante vários dias. Meus rins pararam totalmente e a partir daí todo líquido que eu ingeria ficava retido no corpo, então no intervalo entre as sessões de hemodiálise, que eu fazia três vezes por semana, durante quatro horas, eu chegava a ganhar 5 kg. Não podia tomar líquido, ficava chupando uva e gelo para tentar matar a sede. Até então eu estava tranquilo e tinha confiança de que um dia esse rim ia chegar para mim, mas a partir daí veio o desespero pelo transplante, conta Pacheco.

Durante os anos de espera, o engenheiro não encontrou doadores de rim compatíveis em seu círculo de convívio, mesmo buscando entre familiares e amigos. O rim que viria a transformar a vida de Eliton veio de Santa Catarina, mais precisamente de Joinville. Em agosto de 2016, ele recebeu uma ligação às 21 horas sobre um possível doador e precisaria estar no estado vizinho até as 7 da manhã do dia seguinte. Começamos a analisar qual seria a melhor forma de ir para lá rapidamente e chegamos a conclusão que seria utilizando uma ambulância que pudesse abrir passagem com o giroflex ligado.

Pacheco se deslocou até Joinville com um veículo da Saúde do município de São Tomé, onde reside, e chegou à cidade algumas horas antes do previsto, mas enfrentou alguns problemas antes da tão aguardada cirurgia. Quando cheguei e fiz os exames os resultados foram um pouco diferentes do que esperávamos e então eu tive que fazer uma sessão de hemodiálise lá e acabei atrasando para entrar na sala de cirurgia, mas no final acabou dando tudo certo.

O rim que Eliton carrega hoje era de um jovem de 29 anos que morreu em um acidente de trânsito. O outro órgão foi transplantado em um senhor do Mato Grosso, considerado irmão de rim do engenheiro. Eles se conheceram durante o período hospitalar pós-transplante e não deixaram de manter contato desde então. Apesar de permanecer internado durante bastante tempo após a cirurgia, o engenheiro não apresentou problemas de rejeição e ainda comparece às consultas de acompanhamento periodicamente. Para ele, a vida pós-transplante é outra.

Para mim foi uma nova oportunidade. Eu tinha um monte de limitações na alimentação, não podia ingerir líquidos. E agora eu como normalmente, tenho uma alimentação tranquila, outra disposição, conta. Sobre a doação de órgãos, Pacheco é enfático: Eu sempre digo: doe, doe, doe. Nada pode ser feito com a parte física depois da morte, então não há motivo para não doar, sem contar que é um gesto de amor e carinho ao próximo sem tamanho.

AVANÇOS

O Brasil possui hoje o maior sistema público de transplantes no mundo, sendo que cerca de 95% dos procedimentos são financiados pelo SUS. Os pacientes possuem assistência integral e gratuita, incluindo exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante. De acordo com o Ministério da Saúde, a rede brasileira conta com 27 Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos, além de 13 câmaras técnicas nacionais, 501 Centros de Transplantes, 819 serviços habilitados, 1.265 equipes de Transplantes, 63 Bancos de Tecidos, 13 Bancos de Sangue de Cordão Umbilical Públicos, 574 Comissões Intra-hospitalares de Doação e Transplantes e 72 Organizações de Procura de Órgãos.

No Paraná, do início deste ano até agosto já foram realizadas 334 doações e 542 transplantes. Em Cianorte, o número cresceu supreendentemente nos últimos três anos, depois que uma família autorizou a doação de órgãos de um jovem de 23 anos, e passou a divulgar o gesto para incentivar outras pessoas. Na cidade, a Fundação Hospitalar Santa Casa é cadastrada no sistema estadual como unidade notificadora de possíveis doadores. Em 2014, o hospital registrou uma doação de múltiplos órgãos e três doações de córneas; em 2015 também uma de múltiplos órgãos e 17 de córneas; no ano passado foram oito doações de múltiplos e 32 de córneas e nos primeiros oito meses de 2017 já foram cinco de múltiplos e 10 córneas.

Equipe da Santa Casa 

O crescimento no número de doações é motivo de orgulho para a equipe do hospital, que vem fazendo um trabalho de conscientização, com campanhas e corridas realizadas no mês de setembro, quando se comemora o Dia Nacional da Doação de Órgãos de Tecidos. Este ano, a Santa Casa promoveu a segunda edição da Corrida pela Vida para incentivar as pessoas a conversarem sobre o assunto e se declararem doadores em vida para seus familiares.

O hospital conta hoje com uma equipe de profissionais multidisciplinar especializada na captação de órgãos e na abordagem familiar, como explica a enfermeira Maria Alice Fernandes Bego: O processo começa quando há um caso de morte cerebral identificado. Como mantemos o paciente em ventilação mecânica alguns órgãos continuam em atividade. O paciente não está mais vivo e não há mais chances de sobreviver, mas os órgãos continuam funcionando. Quando isso acontece ele se torna um provável doador e a psicóloga, que realiza um trabalho de acolhimento familiar desde que o paciente é internado, inicia o que chamamos de abordagem familiar. Então a família tem duas opções: desligar os aparelhos, que é um procedimento legal e ético ou doar os órgãos. Se a família decide por doar daí entra em ação toa a equipe de doação de órgãos. A documentação de autorização da família é um pouco burocrática, mas estando tudo certo a Central de Transplantes já começa a identificar os possíveis receptores.

Desde o ano passado, a Santa Casa está com 0% de recusa familiar para múltiplos órgãos, o que significa que o trabalho de abordagem das famílias está surtindo efeito. No hospital, há um ambiente adequado para conversar com os familiares e preparar a documentação. A humanização no atendimento é uma das prioridades da administração da unidade, que mudou em 2014. A enfermeira Angélica Poncetti explica que a direção cobra um atendimento humanizado desde o início. Assim, quando há casos de provável doador a família se sente acolhida e o processo de aceitação é bem mais fácil.

De acordo com o diretor-geral da Santa Casa de Cianorte, Gilmar Célio, a doação de órgãos não dá dinheiro para o hospital, mas é uma causa realizada por amor e dedicação. Quando eu cheguei esse setor não estava parado, mas estava muito precário. As famílias eram abordadas no corredor, não havia sala, estrutura e material. Ao ver isso eu passei a definir a doação como prioridade, ajustamos os ponteiros para ver o que estava faltando, conseguimos várias doações de empresários e pedimos que a equipe se dedicasse para não perder o provável doador. Agora a equipe está bem formada, é multidisciplinar e tem o material e a qualificação necessários.

EXEMPLO

Em 2014, a autorização para a doação de múltiplos órgãos do jovem Geiliandrews Antenor Campanerutti, de 23 anos, que morreu em um acidente de trânsito, representou um divisor de águas na história da Santa Casa de Cianorte. Poucas pessoas conheciam famílias que haviam aceitado o processo e falavam abertamente sobre isso. Mesmo sem ter noção da grandeza de uma doação de órgãos, a mãe de Geiliandrews, Encarnação Cavalari Campanerutti, passou a falar sobre o assunto e a divulgar a história do filho, para que outras famílias fossem incentivadas a fazer o mesmo.

Geiliandrews Antenor Campanerutti

As pessoas começaram a nos procurar depois para saber mais e nós sempre pensamos em contribuir para incentivar isso, porque é o que podemos fazer agora. Até foi uma surpresa para mim a quantidade de pessoas que estão na fila hoje, eu não imaginava que era tanta gente, que era um processo tão difícil e nem que era tão raro as pessoas doarem, contou Encarnação.

Os pais de Geiliandrews tiveram a oportunidade de conhecer a receptora de um dos rins do filho, que os procurou cerca de um ano e meio depois. Marinelze é de Santa Catarina e sempre se sentiu muito grata a eles por autorizarem a doação. Ela já havia passado por duas rejeições de transplante de rim quando recebeu a notícia do órgão do cianortense. Para Encarnação, conhecer a história da receptora pôde confortá-la ainda mais.

Quando nos conhecemos pessoalmente foi muito emocionante para nós e para ela. Ela fazia hemodiálise há dois anos e estava bem desanimada depois do fracasso de duas cirurgias. E foi muito bom para nós saber que deu tudo certo, que já era a terceira tentativa dela. Ali eu tive a certeza de que mesmo depois de partir meu filho continuou fazendo o bem e isso foi muito valioso, relatou.

Família do doador e receptora

Para ser doador, basta avisar sua família em vida. Somente os familiares podem autorizar a doação de órgãos e quando a pessoa não demonstra essa vontade em vida e existe a dúvida, as famílias acabam recusando o processo. Este ano, o Brasil registrou o maior número de doadores de órgãos da história. No primeiro semestre, 1.662 famílias que perderam parentes próximos autorizaram a doação de órgãos. Contudo, o Ministério da Saúde ainda considera alto o índice de recusas: 43% das famílias ainda dizem não e muitas vidas deixam de ser salvas. A campanha do governo federal Família, quem você ama pode salvar vidas, lançada nesta quarta-feira (27), Dia Nacional do Doador de Órgãos, busca sensibilizar a população para a importância da doação de órgãos e de avisar a todos sobre o seu sim.

PROCEDIMENTO

Um doador falecido pode doar coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões. Portanto, um único doador pode salvar inúmeras vidas. A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico, como qualquer outra cirurgia.

Para doação de múltiplos órgãos, é necessária que seja comprovada morte encefálica. Coração e pulmões podem ser retirados de pacientes com até 45 anos e os demais órgãos até 70 anos.

Quando o paciente tem uma parada cardiorrespiratória pode se tornar doador de tecidos, que são córneas, válvulas, ossos e pele. Na Santa Casa a equipe é qualificada para a captação de córneas. No Paraná, um programa de educação continuada anual prepara os profissionais de todo o estado para os procedimentos da doação. Nós participamos todos os anos e isso melhorou muito nosso trabalho. Quatro fatores são o que garantem nosso sucesso: a participação da administração da Santa Casa; a educação continuada do estado; o trabalho da imprensa e a abordagem familiar, afirma a enfermeira Maria Alice.

Transporte de órgãos doados em Cianorte

No Brasil, as equipes responsáveis por captar os órgãos são as mesmas que realizam os transplantes. Em Cianorte, geralmente esses profissionais vem de centros transplantadores de São Paulo ou Curitiba.

Ela explica que no momento em que há um provável doador, é feito um exame chamado HLA, que registra a cadeia genética da pessoa e consegue identificar os receptores compatíveis. O exame é feito em Londrina e entra no sistema nacional, que cruza os dados para identificar quem é compatível e mais está próximo. A Central de Transplantes entra em contato com o possível receptor, verifica se os exames dele estão em dia e informa em quanto tempo ele precisa estar no hospital.

Na nossa região, a maior parte dos transplantes realizados são de rins e córneas. Recentemente, Cascavel passou a ter uma unidade transplantadora de fígado e o restante dos transplantes se concentram em Curitiba.

Na Santa Casa de Cianorte, a psicóloga Ruti Litwinczuk acompanha as famílias de pacientes internados e realiza a abordagem. O processo é baseado na empatia, no apoio emocional e na relação de ajuda profissional, sempre respeitando a decisão familiar e oferecendo apoio durante todo o processo, independente da decisão que a família tomar, explica.

Quanto tempo demora para o corpo ser liberado?

Quando a família aceita a doação, a equipe já pergunta quanto tempo ela disponibiliza para a entrega do corpo. Então fica a critério da família. Nós explicamos o tempo necessário, que é de mais ou menos 24 horas, mas respeitamos a decisão da família. Se eles decidem que querem em 12 horas, por exemplo, nós temos que captar menos órgãos, em razão da logística. Então a família decide tudo, esclarece a enfermeira Maria Alice.

Como fica o corpo após a doação?

De acordo com a Central de Transplantes do Paraná, o corpo do doador pode ser velado normalmente, pois não apresenta deformidades. A cirurgia para a retirada dos órgãos é como qualquer outra.

Como ter certeza da morte encefálica?

A morte encefálica é a ausência completa de fluxo sanguíneo no cérebro. Mesmo que os órgãos do paciente continuem em atividade ele não está mais vivo. O procedimento é muito seguro e realizado por vários profissionais, que comprovam o diagnóstico por meio de diversos exames.

Muitas são as dúvidas e questionamentos acerca da doação de órgãos, mas uma coisa é certa: o ato de amor e solidariedade. Por isso, declare-se doador para sua família e ajude a salvar vidas. (Com informações da Central de Transplantes do Paraná, Agência Saúde, Agência Estadual de Notícias e Santa Casa de Cianorte)

Equipe multidisciplinar de doação de órgãos da Santa Casa: Mariana Midori, fisioterapeuta; Bruna Zamberlam, nutricionista; Angélica Poncetti, enfermeira da qualidade; Maria Alice Fernandes Bego, enfermeira coordenadora da UTI; Kaio Feroldi Motta, administrador; Gilmar Célio, diretor; Samara Saadeddine Trus, farmacêutica, Ruti Litwinczuk, psicóloga; Patricia Brianezi Cazon, chefe do setor de imagem e Werikson Pereira Silva, enfermeiro coordenador do Pronto Socorro