Presidente da Câmara atuava no financeiro de grupo criminoso, diz polícia

A Polícia Civil do Paraná e o Ministério Público do Paraná encerraram, na manhã de quarta-feira, 8, a Operação Big Fish, voltada ao combate a uma organização criminosa suspeita de atuar na lavagem de dinheiro e na exploração de jogos ilegais. A ação ocorreu de forma simultânea em 25 cidades, distribuídas em cinco Estados, e mobilizou mais de 330 policiais civis, com apoio de duas aeronaves.

A operação foi coordenada pela 17ª Subdivisão Policial de Apucarana, pela 21ª Subdivisão Policial de Cianorte e pela 5ª Promotoria de Justiça de Cianorte. Segundo as autoridades, o objetivo foi desarticular um grupo classificado como altamente estruturado e com atuação interestadual.

Em Cianorte, cerca de 30 pessoas foram presas, durante os dois dias de operação. A ação também resultou na apreensão de ao menos 18 veículos e aproximadamente R$ 200 mil em dinheiro. Entre os detidos está o vereador e presidente da Câmara, Vitor Hugo Davanço.

No total, a Justiça expediu 371 ordens judiciais, sendo 85 mandados de prisão preventiva, 102 mandados de busca e apreensão e 184 ordens de bloqueio de contas bancárias. As medidas visam o sequestro de mais de R$ 1,5 bilhão em valores supostamente ligados às atividades do grupo.

Entre os presos há dois vereadores, o que, de acordo com os investigadores, aponta para a infiltração da organização em estruturas do poder público.

A operação também determinou o sequestro de 132 veículos, avaliados em mais de R$ 11 milhões. Entre os bens estão caminhonetes e carros de alto padrão, de marcas como Mercedes-Benz, Porsche, Volvo e Jaguar.

Além disso, foram sequestrados 111 imóveis, com valor estimado superior a R$ 32,9 milhões, além de mais de 100 cabeças de gado. Somados, os bens bloqueados ultrapassam R$ 43,9 milhões.

Durante a ação, 21 sites de apostas ilegais utilizados pelo grupo foram retirados do ar por determinação judicial.

As investigações apontaram que a organização criminosa movimentou mais de R$ 2.195.598.000,00 por meio de 522.753 operações financeiras relacionadas à exploração de jogos de azar. Também foi identificado o uso de diversas fintechs para a circulação de recursos ilícitos, por meio de contas do tipo “bolsão”, estratégia que dificulta o rastreamento da origem e do destino dos valores.

Ao longo da apuração, foram analisados mais de 2,6 terabytes de dados telemáticos, além de mais de 520 mil operações financeiras. As diligências incluíram 57 quebras de sigilo bancário e 62 de sigilo fiscal, todas autorizadas pela Justiça.

Segundo a Polícia Civil, foram presas as principais lideranças da organização, além de integrantes dos núcleos financeiro e operacional, considerados peças centrais para o funcionamento do esquema criminoso.

Vitor Hugo Davanço

O presidente da Câmara Municipal de Cianorte, vereador Victor Hugo Davanço foi alvo de prisão preventiva e transferido para um presídio em Guaíra. Pedagogo e psicopedagogo, Davanço foi o vereador mais votado nas últimas eleições, com 2.373 votos.

De acordo com o delegado operacional da 17ª Subdivisão Policial (SDP) de Apucarana, Ricardo Monteiro de Toledo, o parlamentar atuava na estrutura operacional do grupo investigado. A apuração indica participação nas áreas financeira e administrativa. O objetivo do esquema, segundo a polícia, era lavar dinheiro e dar aparência legal a valores de origem ilícita.

“Ele atuava diretamente na parte operacional do grupo criminoso, com participação nas áreas financeira e administrativa. Segundo a investigação, auxiliava nas etapas finais das atividades ilícitas, com foco na lavagem de dinheiro e na mescla de valores, em uma tentativa de dar aparência de legalidade a recursos de origem ilícita”, afirmou.

No caso de Davanço, não houve apreensão de bens. Apenas o telefone celular do vereador foi recolhido e será submetido à perícia técnica. A análise do aparelho deve orientar o avanço das investigações.

Organização criminosa

A investigação identificou a atuação de um grupo criminoso responsável por estruturar um conglomerado empresarial voltado à exploração de jogos ilegais e à lavagem de dinheiro. A organização surgiu da fusão entre dois dos maiores grupos do país nesse tipo de atividade, um com base no Paraná e outro em Goiás, este último ligado a integrantes associados ao contraventor Carlinhos Cachoeira.

Segundo a apuração, conduzida ao longo de três anos pela 17ª Subdivisão Policial de Apucarana, o grupo operava como uma “empresa criminosa”, com divisão interna de funções e atuação coordenada. A estrutura era segmentada em núcleos de liderança, gestão, financeiro, tecnologia e operação, responsáveis por manter o funcionamento contínuo do esquema.

As investigações apontaram que o grupo mantinha milhares de pontos de exploração de jogos ilegais em diferentes regiões do país. A organização utilizava uma rede hierarquizada para dar suporte a diversas modalidades de apostas, incluindo jogo do bicho e plataformas online.

Para ocultar a origem dos recursos, os investigados criaram empresas de fachada e também utilizaram empresas reais para misturar valores ilícitos com receitas legais. O objetivo era dar aparência de legalidade ao dinheiro obtido com as atividades criminosas e inseri-lo no sistema financeiro formal.

O esquema também contava com o uso de “laranjas”, pessoas utilizadas para movimentar recursos em contas bancárias de passagem. Por meio dessas contas, milhões de reais eram transferidos em operações sucessivas, dificultando o rastreamento dos valores.

A fusão entre os grupos ocorreu com a criação das empresas APOIO e LEMA, utilizadas para dividir a gestão financeira. De um lado estavam os irmãos Lourenço, apontados como líderes no Paraná. Do outro, o grupo goiano, comandado por Lenine e Willian Vitorino, ligados ao núcleo de Carlinhos Cachoeira. Segundo a investigação, trata-se de duas das maiores organizações em atividade no país, que passaram a atuar de forma integrada.

Ainda de acordo com a Polícia Civil, o grupo operava há mais de dez anos com estrutura consolidada para a prática de crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro e exploração de jogos ilegais.

A apuração revelou também a existência de uma empresa de tecnologia da informação dedicada ao desenvolvimento de sistemas para o esquema. No local, técnicos trabalhavam de forma contínua na manutenção de sites e softwares usados nas apostas ilegais.

Entre as plataformas identificadas estão sistemas conhecidos como SUNI e GOLLOT, utilizados para registrar apostas, transmitir jogos e controlar a contabilidade das operações. Esses sistemas eram usados em pelo menos 14 Estados, por dezenas de bancas, que somavam mais de 15 mil pontos de exploração.

Segundo o delegado-chefe da 10ª Subdivisão Policial de Apucarana, Marcus Felipe, a investigação teve início em fevereiro de 2023, após um integrante do grupo sair de Cianorte e ir até Grandes Rios para questionar, “em tom intimidatório”, a apreensão de máquinas ligadas ao esquema.

De acordo com o delegado, a transferência do inquérito para Cianorte permitiu aprofundar a apuração. “A partir desse momento, toda a movimentação financeira e operacional entrou no radar da investigação”, disse.

Cianorte foi apontada como o principal núcleo da organização. “A cidade funcionava como centro nervoso do grupo”, afirmou. Segundo ele, o volume movimentado pode ultrapassar R$ 2 bilhões.

Marcus Felipe também destacou a atuação conjunta das instituições. “O Poder Judiciário atuou de forma firme, dentro da lei, ao autorizar as medidas necessárias”, disse. Segundo o delegado, as decisões permitiram “estancar, descapitalizar e desarticular” a organização criminosa.

Big Fish

A Operação Big Fish teve origem em uma investigação iniciada na cidade de Grandes Rios, no Vale do Ivaí, região norte do Paraná. O município, com cerca de 5,6 mil habitantes, foi o ponto de partida das apurações que buscavam identificar e alcançar as lideranças envolvidas na exploração do jogo do bicho.