Cidades

Trotes atrapalham serviços de saúde e segurança, e ainda podem dar cadeia

Prática é considerada crime no Código Penal Brasileiro e pode gerar multa e detenção
Corpo de Bombeiros recebe trotes todos os dias e precisa filtrar as informações (Foto: MÔNICA CHAGAS / TRIBUNA)

Os trotes ainda são uma realidade diária e comum a serviços de assistência à população, como Corpo de Bombeiros, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e até Polícia Militar. Todos eles têm números de emergência, fáceis de serem lembrados e recebem ligações gratuitas de qualquer aparelho telefônico. Mas o volume diário de trotes passados chega a atrapalhar o trabalho em muitas ocasiões.

Até o dia 10 de abril, a base do Samu de Cianorte já havia recebido seis trotes, de um total de 1909 ligações. Em todo o ano passado, foram 27 trotes e em 2016, 35. No 2° Subgrupamento do Corpo de Bombeiros de Cianorte, o número de trotes não é contabilizado, mas a prática é rotineira, segundo o soldado Franquês Junior Garcia de Souza, que trabalha como rádio operador há dois anos.

“Nós recebemos trotes todos os dias aqui na unidade, principalmente de crianças que ligam de orelhões quando estão voltando da escola. Na maioria dos casos nós conseguimos identificar que se trata de um trote quando solicitamos mais informações, mas quando um adulto liga, por exemplo, inventa uma ocorrência e mantém a firmeza nós chegamos a deslocar a viatura”, explica.

Para o rádio operador, o maior problema do trote é ocupar a linha telefônica enquanto uma ocorrência de verdade precisa acionar a equipe. Quando uma viatura é deslocada o trabalho é prejudicado ainda mais. “Nós trabalhamos com uma ambulância e um caminhão na escala, então se nos deslocamos para uma ocorrência falsa e porventura acontece algo urgente perdemos tempo no atendimento às vítimas”, disse.

Na 5ª Companhia Independente de Polícia Militar de Cianorte (5ª CIPM) não é diferente. Em alguns dias, a cada 10 ligações recebidas nove são trotes. Os policiais que atuam no atendimento explicam que a grande maioria também vem de orelhões no horário do almoço, quando as crianças estão retornando da escola.

Conforme o artigo 340 do Código Penal Brasileiro, “provocar a ação de autoridade, comunicando-lhe a ocorrência de crime ou de contravenção que sabe não se ter verificado é crime” e pode levar a pena de detenção de um a seis meses ou pagamento de multa.

SOLUÇÕES

A Polícia Militar de Curitiba implantou um sistema de gravação que filtra as ligações por área e conseguiu diminuir o número de trotes drasticamente. Para o rádio operador do Corpo de Bombeiros, Franquês de Souza, uma ampla conscientização deveria ser realizada nas escolas para evitar este tipo de atitude. “Não tem explicação, só pode ser uma coisa cultural do brasileiro, falta de educação mesmo, porque nós não recebemos ligações só de crianças, alguns adultos são recorrentes em nos passar trotes”, afirmou.

Na base do Samu de Cianorte o número de trotes não é tão expressivo, mas em números totais o Consórcio Intermunicipal de Urgência e Emergência do Noroeste do Paraná (Ciuenp) – que atende mais de 100 cidades – recebe cerca de 800 chamadas por mês de ocorrências falsas. Em 2016, 9494 das 68341 ligações foram trotes, o que representa um percentual de 13,89%. Em 2015, foram 10162 trotes, de um total de 67808 chamadas, ou seja, mais de 14,9%.

SERVIÇO

190 – Pelo telefone de emergência da Polícia Militar são repassadas informações de ocorrências criminosas, acidentes, denúncias anônimas, entre outras.

193 – O Corpo de Bombeiros e o Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate) atendem ocorrências de incêndios e vazamentos, salvamentos terrestres, aquáticos e em altura, prestam os primeiros socorros em diversas ocasiões, como acidentes de trânsito e de trabalho e atuam na proteção dos cidadãos em caso de contato com animais que possam atacar.

192 - O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atende solicitações do tipo clínicas, como, por exemplo, um caso de infarto, derrame, quando alguém passa mal, uma criança com febre muito alta, e também pode ser acionado em caso de morte natural, em casa. O serviço atua em conjunto com o Siate no atendimento a vítimas de traumas, como acidentes ou atentados criminosos.