Cotidiano

Quando o respeito à diversidade se torna disciplina obrigatória

Projeto implantando em colégio de Cianorte vence o bullying com aulas de conhecimento histórico
(Foto: Arquivo Pessoal )

“Nunca houve no mundo dois fios de cabelos ou grãos iguais. A qualidade mais universal é a diversidade”. As palavras usadas para abrir este texto são da aluna Monalisa Cristina Cândido Silva, do Colégio Estadual Igléa Grollman, de Cianorte. O que a estudante de 18 anos traduz é a experiência que aprendeu durante o projeto ‘Identidade vs Preconceito’ implantando em 2013 sob coordenação da professora Ana Floripes Berbet.

Em 2016, a ação encerrou o primeiro ciclo de atividades que mostram: “vencer o bullying é possível”. Uma metodologia de ensino que implantou o respeito, a empatia e a diversidade como matérias obrigatórias. Além de discutir o bulliyng na escola, pregando o fim da homofobia, xenofobia e racismos, a atividade ainda se destacou nacionalmente por conseguir tornar a sala de aula em um espaço de inclusão, onde alunos com síndrome de down, espectro de autismo, dificuldades motoras e transtornos mentais pudessem viver de forma sociável, sem distinção.

“O projeto proporcionou-me uma ampla visão sobre o tema bullying, mesmo sabendo que acontece diariamente, não tinha a dimensão da gravidade das consequências sobre danos causados”, destaca a estudante Nayara Bueno Sóta, de 16 anos. A lição é básica: se o bulliyng nasce na falta de conhecimento, logo, por que não ensinar aos alunos a origem histórica do preconceito?

A ideia foi desenvolver práticas pedagógicas visando quebrar paradigmas e visões deturpadas entre os alunos, na tentativa de acabar com agressões morais e preconceitos em sala de aula. Esta foi a premissa do projeto que venceu em 2016 o Prêmio “Para Todos de Inclusão Escolar” do Brasil.

 

O início

Tudo começou quando, no final de 2013, a escola foi informada de que receberia alunos com Síndrome de Down e Autismo. A partir disto, as professores envolvidas criaram mecanismo de entender os reflexos disto na sala de aula. Foi então que aplicaram uma redação nas turmas, onde os alunos deveriam responder se tinham sofrido alguma espécie de discriminação ou praticado algum ato preconceituoso.

“O resultado nos surpreendeu, percebemos que em todas as turmas havia diversidades, sendo a homofobia e o mongolismo [termo para definir preconceito a pessoas com Síndrome de Down] os preconceitos mais evidentes”, relembrou a professora responsável pelo projeto.

Ana comentou que para tentar entender a necessidade dos alunos, foram utilizadas práticas pedagógicas embasadas na empatia. “Partimos do princípio de incentivar a reflexão, ou seja, aquilo que não quero para mim, não quero para o outro”, explicou. Foi então que os educadores do colégio passaram a fazer um resgate histórico sobre o preconceito; a origem dos termos. “As atividades envolveram todos os 1,1 mil alunos matriculados, sem exceção”, acrescentou a professora.

Ela detalhou também que, com a chegada dos alunos ditos especiais, as turmas passaram a conhecer e entender a necessidade de cada um antes de dizer, julgar ou condenar, fossem com síndromes, ou não. Foi um processo ano após ano, como lembrou a professora. A convivência trouxe resultados importantes e lutas históricas. Os demais passaram a entender o porquê do outro agir de tal forma, e a partir disto, tornaram-se compreensivos e aprenderam a respeitar.

“Qual o grande X da questão? Quando você passa a entender a dificuldade da pessoa ao lado, você passa entender o porque ela é assim. Sem conhecimento, sem saber quem ela é e porque é, o preconceito surge, há desrespeito, afinal, não há compreensão”, emendou Ana. Segundo ela, a realidade atual é outra. “Não existe discriminação, segregação. Não existe mais o preconceito em sala de aula”.

 

Além dos muros da escola

 

Outro avanço conquistado pelo projeto foi a implantação do Capsi (Centro de Apoio Psicossocial Infantil) para atender crianças e adolescentes com transtornos mentais, pois, por meio do projeto, foi possível perceber que sem uma rede de atenção às dificuldades desses alunos específicos, o quadro clínico avançava. “É na escola onde os problemas sociais se refletem, onde os alunos transmitem o que sente. A escola tem este poder; ser reflexo da sociedade. Por isso, vejo que o projeto precisa continuar”, avaliou a diretora do Colégio, Luciana Mara Tachini Barbosa.

O projeto foi instituído com apoio da professora, diretora à época em que ocorreu a implantação do ‘Identidade x Preconceito’, Silvia Vilela de Oliveira Rodrigues, e deve permanecer ativo, como garantiu Luciana. “Vamos aplicá-lo junto aos novos alunos, mas sem deixar de lado nosso maior desafio, o de implantar este trabalho em rede, levá-lo para além dos muros da escola”, concluiu a diretora atual. O projeto também contou com a colaboração dos demais professores do colégio, funcionários, pedagogos e diretora auxiliar.

 

Os resultados

 

A partir da empatia, o projeto proporcionou um ambiente escolar mais agradável e inclusivo, consequentemente a qualidade do aprendizado passou a ser notável. “ Eles apresentaram um crescimento social e intelectual impressionante. Outro aspecto que não podemos deixar de registrar é com relação ao projeto Identidade vs Preconceito  é a mudança de atitude com relação ao respeito. Estudantes que em outras salas enfrentavam constantemente situações de humilhação, passaram a encontraram espaço para serem respeitados”, cita a professora Marli Gorla.

A mudança de comportamento também foi nítida para os pais de alunos com atenção especial. “O projeto é uma lição de amor, principalmente de como tratarmos nossos filhos e demais pessoas, sejam estudantes, adultos. As atividades nos desperta o que temos de melhor em nós. Hoje eu vejo e sinto o quanto minha filha foi e bem acolhida por todos, sem exceção”, comenta Jurandir Bernardino da Silva, pai da estudante Maria Clara, 19 anos, com diagnóstico de síndrome de Down.