Saúde

Oftalmologista de Cianorte protesta contra veto ao Ato Médico

O símbolo do luto contrasta com seu uniforme branco, enquanto atende em seu consultório. Manuel Duque da Bárbara está fazendo um manifesto desde a última quinta (11). Ele não interditou ruas nem fez cartazes, mas seu protesto já obteve milhares de curtidas nas redes sociais e está ganhando adeptos por todos os lados.

Ele é oftalmologista formado há 33 anos, está há 30 anos em Cianorte e tem três anos de especialização. “A gente se vê humilhado porque nossa dignidade como médico e pessoa foi aviltada, desgastada e estão ao mesmo tempo querendo matá-la”, definiu. O motivo, é o veto da presidente Dilma Roussef ao denominado Ato Médico. “Isso possibilita a outras pessoas da área médica a também ter o direito de atender, consultar e prescrever medicamentos. Patologias importantes estarão sendo subjulgadas”, vaticina o médico.

Bárbara ratificou a importância de não se relativizar o papel da classe.  “Ainda essa semana atendi um menino de 22 anos com dor de cabeça que estava sendo medicado com remédio caseiro, remédio comum que se compra em farmácia. E quando verifiquei seus olhos, descobri um tumor na cabeça e hoje ele deve estar sendo operado”, destacou o médico.

O oftalmologista conta que estudou seis anos de medicina e três de oftalmologia e tem dois filhos que fazem medicina. Mas, diante da conjuntura atual, o que seria orgulho a um pai que tem os filhos seguindo sua profissão, torna-se motivo de preocupação.

Bárbara também fala a respeito do chamado a médicos estrangeiros, para atuar em determinadas regiões do Brasil. “O governo está querendo resolver a questão da saúde na caneta”, diz.

Para ele o problema não é a falta de médicos, mas de estrutura de trabalho que se acumula há anos. “Fica difícil para um profissional trabalhar onde não tem maca, estetoscópio, eletrocardiograma, ultrassom. E aí, onde fica a responsabilidade do médico? Ele pode ser julgado por erro médico”, explica.

São cerca de 400 mil médicos que não vão para a periferia por falta de estrutura, na sua opinião. Para ele, é em virtude de uma pressão de uma camada de brasileiros, com parentesco ou ligados ao governo, que foi estudar fora e agora, atendendo a esse anseio, deseja-se abrir campo de trabalho. “O problema é que eles não passam na prova porque a medicina é fraca onde foram estudar. Os médicos portugueses já falaram que não querem vir para o Brasil nem os espanhóis”, argumenta Bárbara. Porém, no seu ponto de vista, a vinda de médicos não é empecilho, pois o bom profissional sempre terá lugar garantido. “Com todo o respeito que merecem as outras classes, eu quero saber quem vai assinar o atestado de óbito  quando aparecerem os erros”, sintetizou Bárbara diante do contexto atual.

ESTRUTURA


Na perspectiva de Bárbara o padre vende a missa, o pastor o culto e o médico vende o serviço dele também. Mas a forma como o governo quer “empurrar” os médicos para certas regiões é estatizar. “É pegar o Manuel e querer que ele vá atender no Xingu ou no Oiapoque.  Eu vou onde eu quiser. Se lá não tem profissionais é porque não tem condições. Isso é estatizar”. Segundo o mesmo poucas pessoas sabem, mas os oftalmologistas de Cianorte e dos grandes centros atendem os pacientes dos SUS dentro dos seus consultórios.  “Nós já fazemos a nossa parte social. Falta o governo dar sua contrapartida, com macas, centro cirúrgico, ressonâncias.  Com a reforma do Maracanã, para a Copa do Mundo, só no Paraná renderia 30 hospitais regionais”, compara.

Bárbara explica o papel do preceptor, um médico que monitora o trabalho do, então, estudante. “Estão falando que vai ter o estudante e o preceptor. Ele é um professor assistente que acompanha o aluno que está aprendendo e quando ele precisa intervir, ele assume a função. Mas não tem condições de enviar esse profissional para locais sem estrutura”, reafirma. Esse modelo não funciona.