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No Paraná, ricos estão ficando mais ricos e pobres ficam mais pobres

(Foto: Franklin de Freitas)

Todos os dias, João Batista Nascimento, de 43 anos, acorda cedo. Às 6 horas da manhã já está na rua trabalhando, ‘caçanço’ papelões, como ele mesmo afirma. O retorno para casa, na região do Capanema, é só entre o final da tarde e começo da noite, por volta de 19 horas.

“Já são 20 anos trabalhando com papel. Não tive estudo, fiquei muito tempo na roça e, quando vim para cá, já comecei a trabalhar com papelão”, conta o carrinheiro, que há oito anos mora em Curitiba. “Se der muito, tiro R$ 400 no mês. Num dia consigo pegar uns 100 quilos (de papelão)”, relata.

Apesar das dificuldades e da falta de assistência (“não tem aposentadoria, não tem nada”), João realiza seu trabalho com dignidade, sempre de cabeça erguida. Mas há quem tente deixá-lo para baixo. “É muita discriminação. Até estava conversando com garis, é a mesma coisa com eles. Ser humano não pode ter um dinheiro a mais que trata a gente assim. Fazem cara de nojo, tampam o nariz quando a gente passa”, diz o carrinheiro. “Dá até tristeza do ser humano assim”, complementa.

Para agravar ainda mais a situação, nos últimos anos o rendimento médio de pessoas como João caiu significativamente. É o que revela o módulo Rendimento de Todas as Fontes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com o estudo, desde 2014, quando a crise econômica e política começou a se agravar no Brasil, os mais pobres ficaram mais pobres e o mais ricos ficaram mais ricos, fazendo ecoar os versos eternizados por Chico Science e o grupo As Meninas: “O de cima sobe e o de baixo desce”.

Em 2018, o rendimento médio mensal real do 1% da população com maiores rendimentos era de R$ 25.583, o que corresponde a 25,23 vezes o rendimento dos 50% da população com os menores rendimentos (R$ 1.014).

E tem mais: a pesquisa também revela que a massa de rendimento médio mensal real domiciliar per capital, que era de 16,72 bilhões em 2017, cresceu para 17,65 bilhões em 2018. Os 10% da população com os menores rendimentos detinham 1,3% desse bolo, enquanto que os 10% com os maiores rendimentos concentravam 39,2%.

No ano anterior, os 10% da população com os maiores rendimentos ficavam com 38,2% do bolo, enquanto aqueles com menores renda ficavam com 1,4%.
 

A desigualdade econômica no Paraná
(dados de 2018)
Rendimento médio dos 5% com menor rendimento R$ 281
Rendimento médio do 1% com maior rendimento R$ 25.583
Rendimento médio dos 50% com menor rendimento R$ 1.014
Rendimento médio da população (total) R$ 2.436

Desemprego contribuiu para ampliar o ‘abismo social’ no Brasil
A gerente da Pnad, Maria Lúcia Vieira, diza que parte desses resultados é consequência da redução de empregos na indústria e na construção civil. A analista da Coordenadoria de Trabalho e Rendimento (Coren) do IBGE, Adriana Araújo Beringuy, afirmou que também houve impacto de pessoal empregado nas áreas de informação, telecomunicação, serviços financeiros e administrativos.

“É um grupamento grande e que historicamente sempre empregou com carteira de trabalho assinada. Essa atividade perdeu bastante população ocupada e na medida em que contratava, era mais sem carteira e por conta própria. Até os setores mais formalizados começaram a absorver trabalhadores com menores rendimentos”.

Adriana Beringuy destacou o grupamento de transportes, armazenagem e correios, onde está incluída a participação de motoristas de aplicativos e o setor de alimentação, mais voltado para a informalidade, com os vendedores de quentinhas. “Há uma recuperação da ocupação com mais pessoas trabalhando, de fato a população ocupada aumenta, só que a expansão vem por meio de atividades que apresentam rendimentos menores”, completou.

“Continuaram no mercado de trabalho os que estavam recebendo mais. Quem ficava no meio foi mandado embora e recontratado sem carteira e com trabalho informal e rendimentos menores”, concluiu Maria Lúcia.

A desigualdade fica evidente também no Índice de Gini de rendimento médio mensal de todos os trabalhos, que mede a concentração de uma distribuição e que varia de zero (perfeita igualdade) a 1 (desigualdade máxima). Em 2018, ficou em 0,509, enquanto no ano anterior tinha sido de 0,501.