Política

Em maior crise desde a posse, Bolsonaro demite Bebianno

O ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, na saída do hotel onde mora em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno (PSL), foi demitido do cargo pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) na maior crise enfrentada pelo governo menos de dois meses depois da posse. Seu sucessor será o atual secretário-executivo da pasta, general Floriano Peixoto.

O impasse sobre a possível saída do ministro do governo se arrastou por quase uma semana. A decisão foi oficializada hoje pelo porta-voz da Presidência, general Otávio do Rêgo Barros, em declaração à imprensa.

"O excelentíssimo senhor presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, decidiu exonerar nesta data do cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência o senhor Gustavo Bebianno Rocha. O presidente agradece sua dedicação à frente da pasta e deseja sucesso na nova caminhada", declarou o porta-voz.

Questionado sobre o motivo da demissão, Rêgo Barros disse que a razão é "de foro íntimo do nosso presidente".

As decisões em relação à exoneração e nomeação de ministros são de responsabilidade de nosso presidente. Não me cabe avançar em suposições", disse, ao ser questionado se haveria dois pesos e duas medidas quanto ao outro ministro, Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo. A expectativa é que a exoneração de Bebianno seja publicada na edição regular do Diário Oficial da União desta terça (19).

Bolsonaro começou o dia se reunindo com o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), no Palácio da Alvorada. Embora tenha de se recuperar da cirurgia de reversão da colostomia, o presidente passou a despachar do Planalto. A ordem era de silêncio total perante a situação do ex-ministro entre auxiliares e aliados.

A decisão de demitir Bebianno foi tomada após reportagens da Folha de S. Paulo indicarem que ele, então presidente do PSL durante a campanha eleitoral, teria autorizado o repasse de verbas do fundo partidário para uma candidata "laranja" em Pernambuco com o suposto apoio de Luciano Bivar, atual presidente da sigla.

Maria de Lourdes Paixão, de 68 anos, concorreu ao cargo de deputada federal e recebeu R$ 400 mil, sendo a terceira maior beneficiada com verba do partido de Bolsonaro em todo o país, mas obteve só 274 votos.

A prestação de contas dela sustenta que 95% do valor recebido foi gasto para imprimir 9 milhões de santinhos e cerca de 1,7 milhão de adesivos em uma gráfica. No entanto, a reportagem da Folha visitou os endereços indicados por Maria de Lourdes e não encontrou sinais de que ali tenha funcionado o estabelecimento indicado.

Bebianno ainda teria liberado R$ 250 mil de verba pública para a campanha de uma ex-assessora, Érika Siqueira Santos. Parte do dinheiro foi repassado a uma gráfica registrada em endereço de fachada. O agora ex-ministro negou ter responsabilidade sobre os repasses. Como presidente do PSL e da Comissão Executiva Nacional do partido à época do período das eleições do ano passado, ele era o responsável por autorizar repasses dos fundos eleitoral e partidário a candidatos da sigla.

CRISE TEVE INTERFERÊNCIA DE FILHO DO PRESIDENTE

A crise no governo piorou após Bebianno dizer que mantinha contato com o presidente Jair Bolsonaro enquanto este estava internado em São Paulo.

Na última quarta-feira (13), um dos filhos do mandatário, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), publicou em seu perfil no Twitter áudio atribuído ao pai em que este diz não poder conversar com Bebianno. Carlos disse ainda que seria "mentira absoluta" a conversa do político com o presidente.

Bebianno, que é desafeto de Carlos desde a campanha eleitoral de 2018, continuou mantendo a versão de que falou com o presidente, e áudios de conversas que ele teria mantido com Bolsonaro chegaram à imprensa. Em uma das conversas com Bolsonaro, o presidente se irrita ao saber que o então ministro marcou uma reunião com um representante da TV Globo, tida como "inimiga" do governo.

De acordo com o porta-voz, a última vez que Bolsonaro e Bebianno conversaram foi na sexta-feira passada e, desde então, não se falaram mais. Até o momento, o ex-ministro sustenta a versão de que conversou com o presidente três vezes na última terça-feira (12), o que Bolsonaro nega. Questionado se o ex-ministro está mentindo, portanto, o porta-voz afirmou que Bebianno explicou "de forma clara aquilo o que ele imagina ou o que ele gostaria de informar sobre o tema".

Enquanto a crise se desenrolava nas redes sociais e na imprensa, Bebianno tentava ser recebido por Bolsonaro. Depois de dias de "gelo", o encontro dele com Bolsonaro só ocorreu no final da tarde de sexta-feira (15). Na noite de sexta, Bolsonaro decidiu, então, exonerar o ministro, decisão que só foi oficializada hoje.

Sem citar Bolsonaro, no mesmo dia, Bebianno publicou mensagem em rede social dizendo que "a lealdade é um gesto bonito das boas amizades".