Coluna do Tiago Lobão
Menu do Dia : Poesia
Microcosmo
 
Quando o milagre nasceu nos teus olhos
e um tremendo brilho infestou o recinto,
esperaram todos para que Ela falasse.
Não, não éramos mais alguém,
eramos nós, absolutos.
Dolentes e ensimesmados,
na letargia que a tarde emanava,
criávamos algo novo e milagroso
e esperávamos, piamente, que o milagre nos tocasse
e o medo por tudo o que não era nosso desaparecesse.
 
 
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Um Apelo
 
São noites a esperar-te. E espero-te, fiel e infinitamente, pois sei que não vens se não quiseres e minha autoridade não te alcança de onde vens. Reconheço, às vezes deslizo e, impaciente, coloco-me a procurar-te. De nada adianta, é claro, é preciso esperar-te. Largo-me a observar os cantos vazios. Os da casa e os meus, que são tantos. Não, não me sinto só, jamais me senti. Pelo contrário, há fantasmas que não se calam; há vozes interiores; há pessoas, e se parecem tão vivas lá fora que não me deixam esquecer : não se trata apenas de mim, não se trata apenas de você; e, bem mais grave, não se trata apenas de mim e você.
 
Quando chegas, pisando leve, ofereço-te um sorriso e me respondes, semi-silente, um novo código para que eu decifre, ou me devoras. Lutamos madrugada afora, exploro o que me ofereces e sei que, traiçoeira, sempre escondes algo mais. Há armadilhas, há desencanto, há o capricho e o cuidado, e não há aurora que, apontando lá fora, nos arranque de nós.
 
E se nunca mais vieres? E se nunca mais nascerdes em mim, como nascem as angustias e os medos e as saudades? Que desespero... sem você em contraponto é certo, tornar-me-ia apenas angustias, medos e saudades... e nada, nada mais. Quem me traria de volta ao prumo, me daria o necessário norte, me acompanharia até a morte? Ah, é mais do que certo! Coisificaria-me, imóvel e insensível, fim. Que desespero... que disparate...
 
Mas não me prives de ti. Aceita-me, sinceramente. Aceita-me. Não me prives de ti. Venha, sempre, mesmo que ininteligível, desconexa, em língua desconhecida. Venha antiquada, avant-garde ou pós-moderna. Venha, mesmo que eu não te compreenda tão bem, como hoje. Não me evite por isso, não fique nervosa. Sonhei-te poesia, mas encontrei-te prosa.
 
 
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Por dias melhores
 
 Um bom dia.
 
Mal terminou a frase e foi metralhado. Ouviu sobre a vida difícil; o mundo medonho; os podres poderes; os direitos humanos; sobre a vida; sobre a morte e, por fim, sobre a insensibilidade de, em meio a tanto terror, alguém ter o desplante de desejar um bom dia.
 
Sorrindo, respondeu que eram por esses mesmos motivos os desejos de que, pelo menos hoje, o dia fosse bom.
 
 Um bom dia.