Coluna do Tiago Lobão
Consciência limpa
Um sono e um despertar tranquilo é o resultado de uma série de pensamentos e atitudes positivas na vida. Quem não deve, não teme! Inclusive à própria consciência, o maior e pior carrasco que qualquer um de nós pode ter. Não gostaria de estar na pele de quem passa por cima das próprias verdades, das verdades da vida e das Leis, para conquistar um naco a mais de poder ou status, como andam fazendo a nossa classe política.
 
Se o que fazem não lhes gera problemas na consciência, é uma questão de tempo para que venham a tê-los pois, no mínimo, estão plantando, eu seus inconscientes, uma semente de sofrimento ou, no mínimo, de uma bela insônia. Por mais mal intencionados que sejamos, todos temos, no fundo de nosso ser, a noção do que é certo e o que errado. E a alma vai gritar e doer até que a ouçamos e mudemos nossas atitudes.
 
Combater e eliminar o que gera a culpa em nós mesmos é uma questão de esforço pessoal, de controle todo nosso. Faz tempo que não são mais segredos os benefícios do auto-conhecimento. Há tempos recebemos tais recomendações; há tempos yoguis, monges, filósofos, místicos, homens santo e comuns colocam-se em exílio do mundo para a meditação e melhoria de si.
 
Entretanto, mesmo saneado o nosso espírito, não há pessoa justa que permaneça em verdadeira paz quando olha para fora de si e vê o resto mundo longe de estar no mesmo processo. E isso também nos tira o sono.
 
Como expandir a paz interior que tenho e que me faz tão bem a todos aqueles que amo e ao ambiente que me cerca? Como fazer isso e não perder a calma que conquistei com tanto trabalho, ao me expor à essa enxurrada de golpes que o mundo diariamente nos aflige?
 
No livro "Vinha de Luz", no capítulo 86, Emmanuel, através de Chico Xavier dá a dica, citando Jesus Cristo: "Não andeis, pois, inquietos.” (Mateus, 6.31). E continua:
 
"Jesus não recomenda a indiferença ou a irresponsabilidade. O Mestre, que preconizou a oração e a vigilância, não aconselharia a despreocupação do discípulo ante o acervo do serviço a fazer. Pede apenas combate ao pessimismo crônico.
 
... Ainda nos defrontaremos, inúmeras vezes, com pântanos e desertos, espinheiros e animais daninhos. Urge, porém, renovar atitudes mentais na obra a que fomos chamados, aprendendo a confiar no Divino Poder que nos dirige.
 
Em todos os lugares, há derrotistas intransigentes. Sentem-se nas trevas, ainda mesmo quando o Sol figura no zênite. Enxergam baixeza nas criaturas mais dignas. Marcham atormentados por desconfianças atrozes. E, por suspeitarem de todos, acabam inabilitados para a colaboração produtiva em qualquer serviço nobre.
 
Aflitos e angustiados, desorientam-se a propósito de mínimos obstáculos, inquietam-se, com respeito a frivolidades de toda sorte e, se pudessem, pintariam o firmamento à cor negra para que a mente do próximo lhes partilhe a sombra interior."
 
Combatamos, então, o pessimismo crônico! Não nos rendamos aos aos derrotistas de plantão. Unamo-nos e nos inspiremos com nossas boas atitudes, inspirando ao próximo com bons exemplo. Os bons não somos poucos, só precisamos deixar de ser tímidos.
 
Não nos percamos de nós mesmos.
Chegamos ao ápice de um processo histórico importante pelo qual viemos passando nos últimos anos: o desmonte de uma era onde o processo político era feito descolado da vontade popular. Toda mudança de paradigma social é lenta e dolorosa, e é natural que partidários de ideias contrárias se debatam e desse debate surja, inevitavelmente, uma síntese. É o tal do processo dialético (Tese+Antítese=Síntese) de Georg W. F. Hegel. Sim, é aquele mesmo Hegel que voltou à fama por um deslize intelectual há alguns dias atrás e, pelo que me parece, não por acaso. Então é necessário paciência e conhecimento pra um correto agir nesses tempos de euforia e ansiedade à flor da pele.
 
Uma das minhas matérias preferidas durante a faculdade de Direito foi e, ainda é, a Ciência Política e Teoria Geral do Estado, na qual se estuda o processo de criação e validade de um Estado Nacional. Nesses tempos de convulsão social, de ladainhas pra lá, falatórios pra cá, sempre bem munidos da terminologia, mas quase nunca do conteúdo, me lembrei de um conceito muito importante, aprendido do livro "Teoria Geral do Estado", do Sahid Mauf : o conceito de Nação, “um conjunto homogêneo de pessoas ligadas entre si por vínculos permanentes de sangue, idioma, religião, cultura e ideais” .
 
Entendendo esse conceito fica fácil perceber como estamos sendo atacados e onde estão mirando aqueles que deveriam estar nos ajudando e protegendo, os chamados representantes do poder público, nome que não faz muito sentido quando os tais não estão, de forma alguma, usando o poder que o povo os cedeu para melhoria da coisa pública mas, pelo contrário, estão representando, claramente, os próprios e privados interesses. Usam da técnica de "dividir para conquistar" e, nos subjugando, permanecem intocáveis na majestade. Há anos estão nos separando por etnia, religião, costumes e posição política, e já estão conseguindo. Só falta à eles nos fazerem esquecer o nosso maior ideal comum que é "um país melhor, um lugar bom de se viver para nós e nossos descendentes". Mas isso não podemos permitir, é preciso ficar atento, permanecermos fortes e unidos como povo, honestos e respeitosos uns com os outros. Conforme indicam os acontecimentos, qualquer bandeira partidária que se levante hoje em dia, é bandeira criminosa. Não há heróis, exceto nós mesmos, e nossos super-poderes são o amor e o bom-senso que, não duvide, todos nós temos, sim, mesmo que em quantidades diferentes.
 
Estão nos vendendo uma gerra particular pelo poder como uma campanha por um país melhor. Não caiamos nesta armadilha. Acatarmos irresponsavelmente os discursos fatalistas e viciados que nos oferecem é assinar sentença de subjugação e morte do sonho Brasileiro. Deixemos de lado as ideologias políticas que só nos separam, e nos apeguemos às poucas coisas que nos restaram em comum, o verdadeiro ideal que nos une, por esses mais de 500 anos, entre o Caburaí e o Chuí : fazer desse pedaço de chão um lugar de vida digna para todos, sem exceção.
 
Menu do Dia : Poesia
Microcosmo
 
Quando o milagre nasceu nos teus olhos
e um tremendo brilho infestou o recinto,
esperaram todos para que Ela falasse.
Não, não éramos mais alguém,
eramos nós, absolutos.
Dolentes e ensimesmados,
na letargia que a tarde emanava,
criávamos algo novo e milagroso
e esperávamos, piamente, que o milagre nos tocasse
e o medo por tudo o que não era nosso desaparecesse.
 
 
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Um Apelo
 
São noites a esperar-te. E espero-te, fiel e infinitamente, pois sei que não vens se não quiseres e minha autoridade não te alcança de onde vens. Reconheço, às vezes deslizo e, impaciente, coloco-me a procurar-te. De nada adianta, é claro, é preciso esperar-te. Largo-me a observar os cantos vazios. Os da casa e os meus, que são tantos. Não, não me sinto só, jamais me senti. Pelo contrário, há fantasmas que não se calam; há vozes interiores; há pessoas, e se parecem tão vivas lá fora que não me deixam esquecer : não se trata apenas de mim, não se trata apenas de você; e, bem mais grave, não se trata apenas de mim e você.
 
Quando chegas, pisando leve, ofereço-te um sorriso e me respondes, semi-silente, um novo código para que eu decifre, ou me devoras. Lutamos madrugada afora, exploro o que me ofereces e sei que, traiçoeira, sempre escondes algo mais. Há armadilhas, há desencanto, há o capricho e o cuidado, e não há aurora que, apontando lá fora, nos arranque de nós.
 
E se nunca mais vieres? E se nunca mais nascerdes em mim, como nascem as angustias e os medos e as saudades? Que desespero... sem você em contraponto é certo, tornar-me-ia apenas angustias, medos e saudades... e nada, nada mais. Quem me traria de volta ao prumo, me daria o necessário norte, me acompanharia até a morte? Ah, é mais do que certo! Coisificaria-me, imóvel e insensível, fim. Que desespero... que disparate...
 
Mas não me prives de ti. Aceita-me, sinceramente. Aceita-me. Não me prives de ti. Venha, sempre, mesmo que ininteligível, desconexa, em língua desconhecida. Venha antiquada, avant-garde ou pós-moderna. Venha, mesmo que eu não te compreenda tão bem, como hoje. Não me evite por isso, não fique nervosa. Sonhei-te poesia, mas encontrei-te prosa.
 
 
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Por dias melhores
 
 Um bom dia.
 
Mal terminou a frase e foi metralhado. Ouviu sobre a vida difícil; o mundo medonho; os podres poderes; os direitos humanos; sobre a vida; sobre a morte e, por fim, sobre a insensibilidade de, em meio a tanto terror, alguém ter o desplante de desejar um bom dia.
 
Sorrindo, respondeu que eram por esses mesmos motivos os desejos de que, pelo menos hoje, o dia fosse bom.
 
 Um bom dia.
Em Caso de Incêndio
Smoke Gets In Your Eyes é o nome de uma bela canção do The Platters, antigo grupo vocal norte-americano, cuja letra ensina a perceber se é amor ou é cilada dizendo que "quando nossos corações estão em chamas, preste atenção, a fumaça chega aos olhos". Parte da trilha sonora do filme Além da Eternidade (Always, 1989), ela é o tema de amor do casal protagonista, dois brigadistas aéreos da equipe anti-incêndio que toma conta de uma floresta. Peculiar, não é?
É claro que, como uma boa equipe anti-incêndios, a qualquer sinal de fumaça – não nos olhos, mas na floresta –, eles arriscam a vida e, com muita coragem e aventura, conseguem apagar os incêndios. Nada mais lógico pra quem foi exaustivamente treinado pra isso. Pra nós, que nunca quisemos ser Bombeiros, combater incêndios e salvar vidas, é uma luta bastante distante. 
Então vamos trazer isso mais pra perto. O que fazer no caso de um incêndio em nossa casa, local de trabalho, ou lugar no qual estivéssemos? Seguir as regras do protocolo anti-incêndio! Se for de grandes proporções, chamaríamos os Bombeiros e nos manteríamos em segurança. Em casos de pequenas chamas é possível ajudar no pré-combate usando extintores de incêndio ou, pelo menos, retirando de perto do fogo objetos e seres vivos que nos são preciosos e que possam alimentar o incêndio, até que o socorro capacitado chegue. Agora, a missão já fica mais próxima de nós, não é mesmo?
 
Então, ouça o alarme. Olhe ao lado e veja por si mesmo: discussões inflamadas, relações faiscantes, cabeças quentes... e a fogueira das vaidades flamejante como nunca; milhares de homens e mulheres bomba, dizendo "que se exploda". Há um grande incêndio no mundo, nossos corações estão em chamas há fumaça nos olhos mas, infelizmente, não é pelo amor, como diz a canção dos Platters.
 
Queimar o filme dos desafetos, jogar o outro na fogueira, são expressões e atitudes ainda muito comuns entre nós, lembrando um costume do Sec. XVII quando, sem muitas opções de entretenimentos, as famílias – notem bem : fa-mí-li-as – amarravam um gato dentro de um saco e o jogavam na fogueira pra se divertirem vendo-o queimar e grunhir de dor. Pelo menos, com os gatos, fazemos cada vez menos desse tipo de coisa.
Ora, se o mundo está em chamas, que tal seguirmos as instruções para "em caso de incêndio", fazer com que o estrago seja o menor possível? Estar atento para apagar incêndios nos amigos; vizinhos; família e em nós mesmos pode não ser nossa profissão, mas é um dever. Não há solução mais lógica e responsável pra quem está cercado por fogo de todos os lados que não seja esforçar-se para apagá-lo. Muitos, ainda hipnotizados pelas chamas, agindo como agíamos nas cavernas, irão repreender e atrapalhar para preservar o espetáculo.
Ignorar as chamas só aumenta o risco de nos queimarmos. Ao menos, chamemos os Bombeiros! E trabalhemos para a que fumaça em nossos olhos volte a ser apenas indício de amor, como diz aquela velha canção.