Japurá lidera na acerola e São Manoel avança 161% em VBP no campo
De acordo com o economista Jackson Reis, do DERAL/SEAB de Cianorte, a riqueza dos dados permite visualizar transformações econômicas que costumam passar despercebidas nas estatísticas macroeconômicas. “Quando analisamos o VBP, não estamos olhando apenas para as grandes commodities. O levantamento consegue mostrar a dimensão econômica de uma grande variedade de atividades, inclusive aquelas que muitas vezes passam despercebidas quando se olha apenas para os grandes volumes de produção. O acompanhamento contínuo permite identificar mudanças que ocorrem gradualmente no campo e compreender como diferentes atividades contribuem decisivamente para a economia e arrecadação de cada município.”
O agronegócio do Noroeste do Paraná historicamente esteve associado a ciclos monoculturais e à pecuária extensiva sobre solos de arenito Caiuá. No entanto, o levantamento detalhado do Valor Bruto da Produção, elaborado pelo Departamento de Economia Rural da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, revela uma transformação estrutural no campo, confirmando que a região consolidou um modelo produtivo fundamentado na diversificação e na especialização municipal.
Dos 158 produtos agropecuários acompanhados pelo órgão no estado, uma fatia expressiva ganha corpo nas propriedades de menor escala dos onze municípios do Núcleo Regional de Cianorte. A análise dos dados demonstra que, embora culturas tradicionais como milho, cana-de-açúcar e mandioca mantenham volumes elevados, a alta rentabilidade e a segurança financeira do produtor derivam do cultivo de frutas, hortaliças e proteína animal de alta eficiência.
Antes de detalhar os nichos especializados, destaca-se o desempenho das culturas temporárias de grande representatividade industrial que formam a espinha dorsal de processamento da região. Matéria-prima essencial para as indústrias de fécula e farinha instaladas no Noroeste, a mandioca industrial alcançou a marca de 210 milhões de reais em VBP em 2024, valor que representa uma expansão de 93,8% em comparação com o montante registrado em 2019. Já o milho safrinha, cultivado como segunda safra após a colheita do ciclo de verão, atingiu 119 milhões de reais de faturamento bruto na região, acumulando um crescimento de 72% no quinquênio. A valorização dessas culturas garante fluxo de caixa estável para médios e grandes produtores, além de sustentar um parque industrial regional intensivo em mão de obra.
VOCAÇÕES DOS MUNICÍPIOS
O grande diferencial do Médio Noroeste paranaense reside na capacidade de cada município desenvolver vocações agrícolas específicas adaptadas ao seu microclima, tipo de solo e estrutura fundiária. O município de Japurá estabeleceu-se como o maior polo de produção da acerola no Paraná. A fruta, rica em vitamina C e amplamente demandada pelas indústrias de sucos e farmoquímica, encontrou nas propriedades locais um ambiente ideal de desenvolvimento. Para o ciclo de 2025, o levantamento do DERAL estima uma produção de 2.135 toneladas, volume que corresponde a aproximadamente 40% de todo o VBP de acerola do Estado do Paraná.
Responsável pelo maior crescimento percentual de VBP na região, com um salto de 161% ao passar de 164 milhões de reais para 429 milhões de reais, o município de São Manoel do Paraná teve sua arrancada impulsionada pela produção de pintinhos de um dia para corte. A atividade atingiu 272 milhões de reais em VBP, com uma taxa de crescimento de 114% em cinco anos. O investimento em aviários automatizados de alta tecnologia transformou a pequena extensão territorial do município em uma das áreas com maior valor gerado por quilômetro quadrado.
Em Rondon, o cultivo de morango em sistemas suspensos e protegidos apresentou um salto de 229% no valor de produção, atingindo 7,8 milhões de reais. A técnica reduz o uso de defensivos agrícolas, otimiza o uso de água via gotejamento e garante colheitas diárias ao longo de quase todo o ano, proporcionando alta rentabilidade em pequenas áreas de terra. Em Cidade Gaúcha, a citricultura avançou 128% no período, empurrada pela expansão de pomares comercialmente voltados para a indústria de sucos. Já no município de São Tomé, o destaque ficou por conta do cultivo comercial de goiaba de mesa e para processamento, que anotou um avanço econômico de 63,5%. Na bacia leiteira regional, Tuneiras do Oeste consolidou-se ao atingir 27 milhões de reais em VBP direcionados exclusivamente à pecuária leiteira, onde a profissionalização do manejo nutricional e o melhoramento genético do rebanho permitiram manter a produção elevada mesmo diante de oscilações climáticas.
AVANÇO DA FRUTICULTURA
Além das culturas já consolidadas, o estudo do DERAL/SEAB aponta para a ascensão de novas espécies frutícolas que vêm capturando a atenção do mercado consumidor. O VBP do maracujá na região saltou de modestos 308 mil reais em 2019 para 2,5 milhões de reais em 2024. O abacaxi apresentou uma evolução de 192% em seu valor financeiro de produção, enquanto as áreas plantadas com limão e abacate dobraram em extensão no quinquênio analisado.
As estimativas projetadas pelo DERAL para as próximas safras indicam a manutenção da trajetória ascendente na produção de milho safrinha, laranja, café, cana-de-açúcar e maracujá. O retrato desenhado pelas estatísticas oficiais do Paraná confirma a maturação do setor primário no Médio Noroeste. Ao alinhar lavouras tradicionais de escala industrial com pomares e granjas especializadas de alto valor agregado, o agronegócio regional fortalece sua sustentabilidade financeira, fixa o homem no campo com dignidade e garante o dinamismo econômico de toda a região.

