Erosões não resolvidas há anos colocam Cianorte em alerta com El Niño
As erosões voltaram ao centro das preocupações dos moradores de Cianorte diante da aproximação de um novo período de chuvas intensas e da previsão dos efeitos do fenômeno El Niño para o ciclo 2026/2027. Embora o problema seja conhecido pelo poder público há pelo menos uma década, pelo menos duas grandes crateras e voçorocas continuam sem solução definitiva, gerando apreensão especialmente entre moradores de bairros próximos ao Parque Cinturão Verde e de regiões historicamente afetadas pelo avanço das erosões.
A preocupação da população não é recente. Em 2015, a Prefeitura de Cianorte tomou conhecimento da existência de problemas erosivos graves em áreas do município. Desde então, o cenário evoluiu em algumas áreas, mas a solução definitiva para diversos processos erosivos ainda não saiu do papel, mesmo após anos de estudos, projetos, licenciamentos ambientais e anúncios de futuras intervenções.
Um dos casos mais emblemáticos é a grande erosão localizada nas proximidades do Residencial Atlântico IV, dentro do Parque Cinturão Verde. Em julho de 2021, moradores da região do Parque das Nações relataram preocupação com a rápida evolução da cratera, que havia se formado após o rompimento de tubulações e da base do dissipador de águas pluviais.

Na época, o buraco já possuía aproximadamente 30 metros de profundidade e cerca de 150 metros de extensão, avançando em direção à área urbana e chegando a aproximadamente 60 metros da via pública.
Moradores afirmavam acompanhar o crescimento da erosão havia anos e relatavam preocupação com a concentração do fluxo de águas pluviais provenientes de diversos bairros da região.
Em 2023, durante discussão do tema na Câmara Municipal, foi informado que a erosão já havia alcançado aproximadamente 350 metros de extensão e 30 metros de profundidade, tornando-se uma das maiores áreas degradadas do município.
A TRIBUNA DE CIANORTE questionou recentemente a Prefeitura sobre qual é a extensão atual da erosão e se houve avanço nos últimos meses. Até o fechamento desta reportagem, no entanto, o município não havia respondido ao questionamento. Assim, a informação oficial mais recente continua sendo a divulgada em 2023, quando a voçoroca possuía aproximadamente 350 metros de comprimento.
Em resposta aos questionamentos encaminhados pelo jornal, a administração municipal informou que a erosão localizada na região do Residencial Atlântico IV encontra-se estabilizada, enquanto a erosão existente no final da Avenida Bahia continua avançando, embora esteja sob monitoramento constante.
Segundo a Prefeitura, as áreas são monitoradas a cada dois ou três meses, ou sempre que necessário, e não haveria risco imediato para moradores, em razão das medidas paliativas adotadas pelo município nos últimos anos.
Histórico
Apesar disso, a lembrança de episódios anteriores mantém o receio vivo entre a população.
Um dos casos mais graves registrados em Cianorte ocorreu na Estrada da Bica, onde fortes chuvas provocaram o desmoronamento do solo e a abertura de uma enorme cratera que chegou a dividir a estrada e comprometer o acesso à região rural.
Em determinados momentos, o avanço da erosão colocou residências em situação de risco, exigindo a retirada preventiva de moradores pela Defesa Civil e pelo Corpo de Bombeiros.
Situação semelhante também foi registrada na Estrada Alba, onde as enxurradas provocaram erosões significativas e danos ao sistema viário rural, exigindo intervenções emergenciais por parte do município.
Outro episódio marcante ocorreu em março de 2018, quando uma erosão provocada pelas chuvas destruiu parte da PR-082, interrompendo o tráfego e evidenciando novamente a vulnerabilidade do município diante de eventos climáticos extremos.
Especialistas apontam que Cianorte possui características naturais que favorecem a formação de erosões. O município está localizado sobre o Arenito Caiuá, formação geológica altamente suscetível ao desgaste provocado pela ação da água. Quando associado a falhas em sistemas de drenagem, rompimentos de galerias pluviais e grande concentração do escoamento superficial, o risco de formação de voçorocas aumenta significativamente.
El Niño e previsão de chuvas
Agora, a previsão de influência do fenômeno El Niño para os próximos meses volta a acender o sinal de alerta.
De acordo com a Prefeitura, o município já recebeu orientações da Defesa Civil Estadual e segue um cronograma de preparação e mitigação dos possíveis impactos do fenômeno climático.
Entre as ações anunciadas estão a limpeza e desobstrução de galerias pluviais e bueiros, manutenção e ampliação de bacias de contenção, monitoramento de áreas vulneráveis, poda preventiva de árvores e atualização do Plano Municipal de Contingência para Desastres Naturais.
A administração municipal também informou que existem áreas de risco previamente mapeadas e que elas recebem atenção especial das equipes técnicas.
Questionada sobre a situação específica do Cinturão Verde diante da previsão de chuvas acima da média, a Prefeitura afirmou que a preocupação maior está relacionada às bordas do parque, que estariam recebendo serviços preventivos de manutenção.
Quanto às obras definitivas, a administração informou que a recuperação da erosão do Residencial Atlântico IV encontra-se em fase de licitação para contratação da empresa responsável pelos serviços de engenharia. O projeto prevê terraplanagem, implantação de sistemas de drenagem superficial e profunda, estruturas de contenção, estabilização geotécnica e técnicas de bioengenharia para recuperação do solo.
O valor máximo previsto para a intervenção é de R$ 4,2 milhões e o prazo estimado para execução da obra é de oito meses após a assinatura do contrato.
Já em relação à erosão localizada no final da Avenida Bahia, a Prefeitura informou que o projeto técnico já foi elaborado e que o município trabalha atualmente na elaboração do orçamento e na busca por recursos para viabilizar a futura licitação.
Ainda não há previsão do investimento total necessário para solucionar definitivamente os problemas erosivos do município.
Enquanto projetos avançam lentamente entre etapas técnicas e burocráticas, moradores seguem acompanhando com preocupação a chegada de cada nova temporada de chuvas, temendo que cenas já conhecidas da história recente de Cianorte possam voltar a se repetir.

