Cidades

Filho dedica a vida para cuidar de mãe acamada há 12 anos

Agências

25/08/2012 às 09:28 - Atualizado em 27/08/2014 às 02:43

VIDA MELHOR – Situação de mãe e filho começou a mudar depois que assunto foi parar na Rede

Metade de uma vida dispensada a uma só pessoa. Essa é a síntese da história do cianortense Adriano Borges, 25 anos, que desde os 13 cuida de sua mãe acamada, Maria J.B. Nascimento, 54 anos, após a mesma ter sofrido dois AVCs – Acidente Vascular Cerebral.

Adriano tinha nove anos quando viu, após uma briga de casal, seu pai rasgar todos os documentos pessoais de sua mãe, antes de ir embora de casa e nunca mais dar notícias. Uma amiga a ajudou a fazer a segunda via e tão logo conseguiu, a trabalhadora rural que saia cedo para o campo teria sua rotina alterada. Um dia, o primeiro AVC a deixou uma semana no hospital, sem voz e movimentos. Ela ficou com os comandos das pernas comprometidos, mas ainda dava conta dos serviços domésticos e de cuidar de Adriano e seus outros dois irmãos, atualmente casados.

Oito meses depois, um segundo AVC mudaria a rotina não apenas de Maria José, mas de Adriano e seu irmão caçula. “Tinha 13 anos. Eu acordava as cinco horas da manhã para trabalhar e voltava uma hora da tarde. Nesse período o meu irmão acompanhava minha mãe. Depois ele também casou e fiquei sozinho para cuidar dela.” Entre a necessidade de ter um emprego e de cuidar em tempo integral de sua mãe, o garoto que não teve ajuda dos 11 irmãos de sua mãe, demais familiares ou amigos, providenciou o auxílio doença de Maria José. É com essa renda, no valor de R$622,00 que ambos sobrevivem.  

CORRENTE DO BEM

A trajetória de mãe e filho ganhou novo rumo quando Irmã Benigna, muito conhecida em Cianorte e Região pelos trabalhos de caridade que desenvolve, os conheceu, ocasião em que moravam no bairro Seis Conjuntos, nos fundos da casa da avó materna de Adriano. Uma casa de alvenaria deu lugar ao barraco de lona sob o qual viviam.  Há alguns meses se mudaram para o conjunto habitacional Aquiles Comar. Uma assistente social conheceu a rotina da família, Vanessa de Souza Machado  postou um vídeo na internet, internautas compartilharam a história. E a vida de ambos começou a mudar, dessa vez para melhor.

 

‘KARIDADE’

“Há muitos anos eu sinto a necessidade de fazer algo pelo próximo. Não sabia o modo e um dia veio o caminho, através da internet”, explica a representante comercial Vanessa. Ela e a secretária administrativa Fernanda Gomes criaram um blog (http://www.karidade.com.br/blog/) e nele contaram a trajetória de Adriano e sua mãe. “O bonito na história de Adriano e de outras pessoas que conhecemos é que eles mesmos falam de outros casos de pessoas que necessitam de ajuda. São solidários aos demais, não se prendem no egoísmo de quererem ajuda somente para si”, destaca Vanessa. Ela diz que a intenção em divulgar a  história era que as pessoas fossem pessoalmente conhecer a vida da família.

E o encarregado de construção, Leomar Castelo Jorge, foi conferir de perto. Ele tem coletado alimentos e já conseguiu arrecadar aproximadamente 750 reais, metade do valor que está sendo gasto para pagar parte da mão de obra da construção do muro em torno da casa. Os pedreiros fizeram um desconto, também em contribuição na  empreitada.  “Acho que as pessoas deviam visitar a família e ajudar como podem. É melhor ajudar do que ser ajudado” diz Jorge ao salientar a dedicação do rapaz. “Para um filho se entregar nos cuidados de uma mãe, é um ato muito significativo.”

Pelo fato de Maria José ter menos que 65 anos, ela não pode ser beneficiada com a compra de fraldas pela metade do preço, mas por um bom período isso não vai ser motivo de preocupação para Adriano. Depois que sua história foi divulgada, chegaram até o endereço pacotes de fraldas, como também alimentos, móvel de sala, cadeiras de rodas, materiais para construção e outros.

 

ENFERMEIRO NATO

Adriano estudou até a oitava série e interrompeu os estudos para cuidar da mãe. Hoje, já sonha em concluir o segundo grau, através do EJA – Educação de Jovens e Adultos. “Já que estou nessa vida, quero fazer enfermagem” diz sorridente. Ele ganhou um computador, que ainda não está conectado à internet, no intuito de que possa fazer algum curso à distância. Tem poucos amigos e raramente sai para lazer.

Quando ocorre, é por menos de uma hora, para comer um lanche na esquina. Acorda seis e meia para servir o café. Uma hora depois dá o banho. E inicia a sequência dos remédios, oito ao dia. Entre as dez e onze horas prepara o almoço. Demora duas horas para alimentá-la e nesse meio tempo tem que aquecer a comida. Somente depois vai se alimentar. Faz massagens diárias, para evitar que os membros se atrofiem. Conta com orgulho que em mais de uma década acamada, sua mãe nunca teve uma bolha pelo corpo, que é um dos problemas quando o paciente fica muito tempo em uma mesma posição. Dedica-se simultaneamente nos cuidados com a mãe e a residência. O amor de um filho por um mãe, naquele lar, pode ser visto e tocado.

 

 

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